DE MÉDICOS E HIPOCRISIA PROFISSIONAL



Preciso hoje fazer um registro a respeito de um dos pontos "cegos" no horizonte das carências de nossa gente brasileira.

Muita coisa se fala a respeito das atribuições dos governos, suas omissões inadmissíveis, dos desvios de verba, etc e tal, mas há algumas amarras miúdas, que contribuem para embaraçar ainda mais as linhas. Mas porque estão fora da visibilidade social, digamos assim, são solenemente ignoradas, quando o debate é levantado.

Assim é em relação ao tripé Educação-Saúde-Segurança. Pretendo expor essas dificuldades "extra-debate", em relação a cada uma dessas atribuições estatais.

Mas hoje quero me deter na classe médica.

Já existiu todo um "glamour" em torno dos homens "de branco", das pessoas que salvam vidas, que minimizam o sofrimento físico. Profissionais que levam a vida inteira aprendendo como o corpo funciona, e as possibilidades de conserto que essa máquina maravilhosa - que é o ser humano, pode ter.

Me lembro de pessoas incríveis, que clinicavam enquanto estavam em pé, gente como o Dr. Ivan (meu pediatra), lá do Méier, meu bairro natal, no Rio de Janeiro... ou Dr. Wilson Tramontini, pediatra, de Cianorte, PR, ou o Dr. Antonio Matheus de Menezes (clínico geral), na pequenina Jequiriçá, BA...  sem dúvida há alguns outros abnegados...

Mas notem que eu coloquei "Já existiu todo um 'glamour'..."JÁ EXISTIU.

Já existiram pessoas que prezassem com maior valor sua vocação, que sentissem verdadeiro prazer em salvar vidas, em curar pessoas, em mitigar o sofrimento alheio. Já existiram pessoas que levassem a sério o famoso (e superado) juramento de Hipócrates - claro, a questão da remuneração seria controversa, e aqui é que se estabelece a diferença entre profissionais e empresários.

Se fossemos considerar a capacidade de atendimento de nossa classe médica, ou melhor, se eles se ocupassem MESMO de um percentual honesto de pacientes, teríamos toda a população atendida, não se enganem! A maioria de nossa gente vive em locais servidos diretamente, ou de perto, por médicos.

A problemática está mais relacionada "ao que buscam ter", ao invés de "ao que querem fazer".

Num país solapado por males de todo o tipo, como dar-se ao luxo de trabalhar UM DIA, por semana, ganhar R$ 10.000,00 mensais, e o restante do tempo estar aos serviços de suas próprias clínicas, ou empreendimentos particulares? Vou além... não tenho nada contra a pessoa colocar preços em seu trabalho bem feito (nem sempre, infelizmente), mas fraudar, por exemplo, órgãos públicos, registrar digitais, e ir trabalhar em sua clínica? IMORALIDADE.

Pessoas, porque os médicos não podem viver vidas comuns? Porque não podem trabalhar ao menos VINTE horas semanais, para minorar o sofrimento de nossa gente, e destinar as remanescentes vinte horas da semana "inglesa" para clinicar, pescar ou bordejar por aí?

Não... Assim temos médicos que são na verdade pecuaristas, políticos, agricultores, administradores, agiotas... isso, claro, antes de serem médicos (em ordem de importância de atividade).

Muito se tem dito sobre o programa "Mais Médicos", do governo PT. Que eu pessoalmente acho uma aberração. Mas os Conselhos de Medicina é que deveriam se envergonhar - fazem de sua classe semideuses, praticamente, fazendo também discreto fisiologismo, ao invés de lhes instruírem a buscar serem primeiramente profissionais, e aí então tentarem a carreira de magnatas... mas quando o governo tenta, ainda que de uma forma totalmente condenável, mitigar o problema do atendimento, ficam revoltados, etc e tal... PONHAM ESSA MOLECADA PRA TRABALHAR, para darem valor ao dinheirinho suado que tentam colher de nossa gente, que em sua maioria, não pode pagar preços de "Sírio-Libanês"!

Nem me falem da remuneração que o SUS oferece aos médicos credenciados (uma miséria, reconheço)! Quero saber de interesse em manter vidas, em cuidar da dor das pessoas. Existe, isso?

Soube, em paralelo, que jovens médicos iniciaram empreendimento no qual, mediante módicos preços, são realizadas consultas, em bairros populares (em São Paulo, SP, se não me engano). Pois bem... ELES ENRIQUECERÃO. E serão lembrados pelo seu desprendimento em, ao invés de cobrar R$ 250,00 por consulta, ponderarem que TALVEZ o paciente viva só com o salário mínimo, e lhe cobrem R$ 60,00. E as comparações com os "magnatas" serão inevitáveis... podem escrever.

Quando aos demais? Alguém já disse:  "A soberba precede a ruína.".  A eles lhes caberá o finalzinho do juramento que recitam - em parte, mas rejeitam cumprir:  "Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."

"Se ao final dela, a vida se resumir ao que você possuir, você não teve nada nessa vida."  

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